sábado, 22 de janeiro de 2011

Durante algum tempo tentei não escrever sobre a morte do Carlos Castro. Sentia que não tinha grande coisa a acrescentar a tudo o que já tinha sido escrito. Mas continuo a ler por aí coisas que me fazem uma confusão tão grande que tenho mesmo de dizer alguma coisa.
Que o Carlos Castro era homossexual toda a gente neste país sabia. Não é novidade para mim, nem para ninguém que viva cá há algum tempo. E também não é novidade que não era das figuras mais apreciadas do país devido ao trabalho de cronista social.
Mas, e aqui entra a minha indignação, merecia por isto ser morto como foi?
E o Renato, por ser jovem, bonito, modelo, tem de ser desculpado pelo crime horrível que cometeu?
O que me parece quando leio coisas sobre este assunto é que os valores de algumas pessoas estão completamente invertidos.
Sei que a linha entre a sanidade e a loucura é muito ténue. Que em situações limite todos podemos psicotizar. Que existem situações que nos colocam completamente fora de nós.
Mas não é por isso que devemos deixar de ser castigados.
E se é verdade que não sabemos ao certo o que aconteceu naquele quarto também é verdade que o Renato tinha milhares de opções que não matar. Podia ter-se simplesmente vindo embora. Podia, com a estrutura física que tinha, ter agredido o Carlos Castro para lhe mostrar que não pactuava com o que ele queria. Podia ter pedido ajuda ao consulado e à embaixada se sentia que estava a ser vítima de alguma coisa.
Mas não foi nada disto que ele fez. Matou. E se eu até conseguiria (embora muito dificilmente) perceber que o tivesse feito em legítima defesa não é para isso que os contornos deste crime apontam. Porque a seguir a matar torturou. Castrou. E ainda ficou quatro horas com o cádaver no quarto.
Algumas vezes pergunto-me se a reacção das pessoas seria a mesma se isto tivesse acontecido entre um casal de pessoas heterossexuais com idades aproximadas. E sinto que não era. Que o facto de o Carlos Castro ser velho e homossexual e ter uma imagem algo negativa na sociedade e o Renato ser bonito e jovem e modelo influencia muito a atitude das pessoas.
Percebo a dor da família do Renato. Percebo que não queiram acreditar que o filho/irmão/neto tenha comitido um crime destes. Percebo também a indignação das pessoas que o conheciam. O que já me custa a perceber são todas as outras pessoas que não o conheciam e o defendem com unhas e dentes. E que digam que a história tem de estar mal contada. Que tem de ter acontecido alguma coisa naquele quarto que o tenha feito fazer o que fez. Que não sabemos o que o Carlos Castro lhe terá prometido e depois não terá cumprido.
E o que eu tenho a dizer é que as pessoas se esquecem que o Carlos Castro era uma pessoa que foi morta e torturada. Que também tinha uma família. Que não há nada que justifique tirar a vida a outro ser humano. Que há sempre outra saída. E sobretudo que muitas vezes, infelizmente, não é preciso haver razões para se matar. Que o facto de o Renato ser bonito e jovem e modelo não significa que não possa ser assassino. Que o Carlos Castro não devia nada ao Renato. Que estava com ele porque queria ter sucesso da maneira mais fácil. Que não era uma criancinha inocente que foi abusada por um pedófilo.

Adenda: acabei de ler na Visão que agora existe uma petição para a extradição do Renato Seabra para Portugal caso seja condenado. Uma petição para trazer uma pessoa que confessou um crime. E que ainda por cima não foi feita pela família. E não consigo mesmo entender o que se passa na cabeça destas pessoas. Mesmo.

P.S.: relativamente a este assunto gostei muito de ler a Cat, s SMS, e a Ritititz.

5 comentários:

  1. Tudo puro preconceito. Não entendo as pessoas. Não entendo as ondas de solidariedade e a pena que sentem pelo miúdo. E digo sempre o que referes aqui: matar num gesto de defesa, de medo, de pânico, pode até acontecer-nos a todos, sem intenção real de o fazer. Agora torturar, profanar e cortar...não há desculpa possível.

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  2. Sinceramente...
    e relativamente a essa petição eu não entendo...

    ele matou uma pessoa...
    para mim... as razões ainda são piores ... vir para Portugal?
    Porque?

    Não teve coragem para matar? Não me digam que agora não tem coragem para ficar enterrado numa prisão americana....?

    Não consigo ter pena desse renato...
    nada do mundo justifica o acto dele... nada....!

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  3. My pleasure em ser referida neste post :)

    Existe uma conta de solidariedade. COMO É QUE É POSSIVEL? Como? Se se tivesse passado tudo exactamente igual mas com um casal heterossexual, seria tudo diferente. É tão estúpido isso!

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  4. Cat,

    Referi porque gostei mesmo do te texto sobre o assunto. Curto, directo e completo. Conta de solidariedade, petição, imensos comentários a defendê-lo no facebook...

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