quarta-feira, 8 de maio de 2013

Compulsão alimentar

Já falei aqui do meu excesso de peso, já falei das minhas dietas, mas nunca abordei o assuntos dos problemas do comportamento alimentar. E, sendo eu psicóloga, e interessando-me por este assunto há já algum tempo, tenho um conhecimento superior ao da maioria das pessoas.

Mas, primeiro, e para que se perceba o porquê de eu abordar este assunto no blogue, convém contar um bocadinho da minha história. Sempre fui gordinha. Não nasci gorda, não fui gorda até aos 5/6 anos, mas a partir daí comecei a engordar. Muito fruto de uma alimentação pouco regrada e equilibrada que se fazia cá em casa, e que me foi criando hábitos alimantares pouco saudáveis, com os quais fui engordando.

E, à medida que ia engordando, ia ganhando complexos, por ser gordinha. E isso afectou muitas áreas da minha vida; sempre achei que ninguém se ia interessar por mim por ser gorda, e sempre arranjei desculpas para afastar todas as pessoas que, de facto, se aproximavam. Acredito mesmo que, a partir de uma altura, deixei-me engordar mais por não querer e não saber lidar com o sexo oposto. Nunca tive, e continuo a não ter, em casa, por parte do meu pai, um modelo masculino que gostasse de mim como eu era e me ajudasse a aceitar, a gostar de mim, e a sentir que tenho o direito de ser feliz no meu corpo, de lutar por o tornar mais bonito.

Fiz a minha primeira dieta a sério quando tinha 17 anos. Já tinha tentado emagrecer antes, a minha mãe já me tinha levado a um ou dois endrocrinologistas, para se certificar que eu não tinha nenhum problema gladular que me fizesse engordar, mas eu nunca tinha levado essas tentativas a sério. Por isso, considero que a minha primeira dieta foi aos 17 anos. Não fui a nenhum médico. Simplesmente recorri ao meu bom senso, deixei de comer pão, arroz, batatas, massa, doces, passei a comer iogurtes magros, fruta, cereais, e carne e peixe com legumes. Lembro-me que emagreci 9 kgs. num mês. Tinha 17 anos, nunca tinha feito dieta, a coisa resultou. Tenho fotografias dessa época, e, quando olho, gosto do que vejo. Não estava magra, estava cheinha, mas estava elegante.

Não me lembro quando tempo me mantive assim, mais magra, mas sei que o que me aconteceu depois, é o que me acontece sempre. Faço dieta certinha, sou estóica, resisto, e resisto, e resisto. Mas, quando faço uma asneira, não consigo fazer só uma asneira. Perco-me. E depois custa-me muito a retomar. Até porque, tal como tenho facilidade em emagrecer, também tenho facilidade em engordar. E sou capaz de engordar 2/3 kgs. em menos de uma semana. Sei que não são "quilos reais", sei que são em grande parte retenção de líquidos frutos das aneiras, e sei que os perco rapidamente, mas são motivo para que eu desmotive e me deixe ir.

Nos últimos anos, perdi muito peso. Já podia estar bem. Mas o que me aconteceu foi que perdi, e voltei a ganhar, perdi e voltei a ganhar, perdi e voltei a ganhar. Foi por isso que hoje resolvi falar aqui no blogue de compulsão alimentar. Podia não falar, podia não expôr esta parte de mim, podia optar por não mostrar esta minha fragilidade. Logo eu, que tenho tanto dificuldade em lidar com as minhas falhas, que, no fundo, queria ser perfeita e não lido bem com os meus erros. Mas optei por falar - acho que pode ajudar alguém, e certamente, pode-me ajudar a mim. Assumir os nossos problemas é sempre uma forma de os enfrentar. E eu, que perdi tanto peso nos últimos meses, que gastei tanto dinheiro comigo, que me portei tão bem, sinto que estou, novamente, a começar a falhar, a começar a perder-me. Mas, desta vez, não vou deixar que isso aconteça. Desta vez vou ser capaz de emagrecer ainda mais, de, finalmente, ficar bem comigo.


Até porque esta questão influencia toda a minha vida. Torna-me mais insegura, interfere com a minha felicidade, influencia a forma como me vejo e olho para mim. E, neste momento, felizmente, eu tenho ao meu lado uma pessoa que fez o que o meu pai não fez ao longo da vida - ensinou-me a gostar de mim como sou, e mostrou-me que tenho o direito de querer lutar por mim e ser feliz com o meu corpo. Uma pessoa que todos os dias faz subir a minha auto-estima, e me diz que eu sou bonita, mesmo quando eu me acho o bicho mais feio à face da terra.

Chamei a este texto "Compulsão alimentar", e ainda nem sequer falei nisso. Mas, tudo aquilo em que falei, de alguma forma caracteriza a compulsão alimentar. Eu não acho que tenha a perturbação, pura e dura. Acho, sim, que tenho, no meu comportamento, algumas das características da perturbação. E, sobretudo, acho que quem tem excesso de peso tem, sempre, uma relação pouco saudável com a comida. Porque, quem tem uma relação saudável, sabe e pode fazer asneiras, de vez em quando, sem que essas asneiras façam engordar, ou controlem a vida.

Então, mas, afinal, o que é a compulsão alimentar?

"A compulsão alimentar é um transtorno alimentar comum, em que um indivíduo consome regularmente uma grande quantidade de comida de uma vez só, ou «depenica» constantemente, mesmo quando não tem fome ou se sente fisicamente desconfortável por comer tanto. Ao contrário dos bulímicos, quem come compulsivamente não purga depois de comer em excesso, nem pratica com frequência exercício em excesso na tentativa de queimar calorias. A compulsão alimentar pode ocorrer em pessoas de qualquer sexo, raça, idade ou estrato socioeconómico e, como quem sofre do transtorno de compulsão alimentar aumenta com frequência de peso ou se torna clinicamente obeso, torna-se passível de contrair uma grande variedade de doenças. Infelizmente, não há uma cura reconhecida para o transtorno de ingestão compulsiva, mas existe uma variedade de opções de tratamento que podem ser exploradas quando o transtorno é diagnosticado.Quem sofre do transtorno de compulsão alimentar consome grandes quantidades de comida de uma só vez ou come constantemente durante um determinado período (por exemplo, durante uma festa de aniversário ou na Consoada) mas não purga ou se liberta da comida depois. O transtorno de compulsão alimentar é habitualmente reconhecido por outros devido aos hábitos alimentares de um indivíduo, tais como:



Agora, depois deste texto em jeito de confissão, venham de lá os anónimos, chamar-me lontra e outros mimos igualmente simpáticos. 

22 comentários:

  1. nem os anónimos querem saber de ti!
    Maria

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    1. e a mim não me agradece?
      se não fosse eu, não tinha tantos comentários fofinhos :)
      ahahah

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  2. lontra não digo mas corajosa sim. acho que é preciso coragem para admitir publicamente que se teve problemas com comida.
    um beijinho grande
    TS

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  3. Meu deus ... Como é possível... ao ler esta história revivi a minha história passada e infelizmente actual! Pensava que era a única :(

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    1. Ana,

      Quer enviar-me um mail?

      Beijinhos

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    2. Ana,

      Já conhece o meu novo bligue a minha página de facebook? Pode ser que seja útil:

      http://misshealthypt.blogspot.com
      www.facebook.com/misshealthypt

      E, se quiser, envie-me um email para misshealthypt@gmail.com

      Um beijinho

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  4. Gostei muito. Um texto honesto, sincero, digno. Também sou assim para o roliça, apesar de não me considerar uma pessoa com muito peso a mais. E falta-me a força, a vontade para lutar contra os quilos extra... admiro-te por seres tão determinada.

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    1. S*,

      Deixas-me sem palavras. Mas não vale, porque és minha amiga. No entanto, obrigada pelos elogios.
      Beijinhos

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  5. A Teresa é sem dúvida um exemplo!
    Enfrenta os medos e não tem vergonha de os admitir.
    É sem dúvida daquelas pessoas que valem a pena :)**

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  6. Olá Teresa! Identifico-me muito com o que descreveste, ao contrário de ti só fui engordar na adolescência, depois fiz dieta, emagreci, depois engordei novamente. Quando conheci o meu marido fui ao ginásio e livrei-me dos kgs a mais, fiquei seca, com 58kgs em 1.69. Mas...depois engravidei e engordei 20 kgs, emagreci 10, engordei-os novamente por causa de uma depressão pós-parto. Emagreci até os 62kgs, porém a minha/nossa vida mudou depois que o marido ficou desempregado, tivemos de deixar Portugal e isto já faz quase um ano, e o resultado: os kgs perdidos encontrados outra vez. Atualmente ando no ginásio 4x por semana, mas vejo que a minha compulsão sempre me vence quando estou em momentos difíceis. Por ser uma pessoa que odeia dieta, vegetais e a maioria das frutas, só me resta fazer muito exercício. E olha, devia era voltar para terapia. Boa sorte para ti, não estás só!
    beijinhos

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    1. Bonitinha,

      Já conhece o meu novo bligue a minha página de facebook? Pode ser que seja útil:

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      Um beijinho

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  7. Miss G.. Vim aqui parar "do nada" e identifiquei-me imediatamente com o que aqui escreveu!

    Quanto a mim, desde que me lembro de existir que me lembro de ser gorda. Nunca tendo sido obesa (muito graças ao meu 1,74 de altura), sempre tive (muito) excesso de peso. A minha infância, adolescência e início da idade adulta foram marcadas pela gordura. Os rapazes não olhavam para mim. Não podia usar as roupas que as minhas amigas usavam. Era a rapariga querida, mas gorda... Enfim. A partir dos doze anos comecei a ir a nutricionistas. A minha mãe sempre travou uma luta, muitas vezes mais que eu própria, contra o meu peso. Foram rios de dinheiro gasto em nutricionistas, muitas lágrimas e esforços em vão... No início tudo era perfeito, perdia sempre cinco a seis kilos, mas depois voltava tudo ao mesmo. Cumpre aqui esclarecer que a minha mãe é magra e gira, o meu irmão igualmente e também o meu padrasto, como os filhos dele. Eu era e sempre fui "a gordinha...coitadinha." E assim foi até aos meus 19 anos, altura em que fiz uma dieta mais radical. Já estava no segundo ano da faculdade (tirei o curso de Direito e sou actualmente advogada-estagiária) e aquele foi "o momento". Perdi cerca de quinze kilos. De 85 passei para os 70. Foi uma vitória. Nunca imaginei que conseguisse. Mas não era suficiente e conforme os anos passavam, nunca conseguia descer daqueles malditos 70.. Se tinha perdido tanto, porque é que não conseguia descer dali? A verdade é que o problema é que com a anterior dieta eu não tinha aprendido a comer.. Os hidratos eram completamente proibidos, o que em tempos de faculdade me causava uma ansiedade impossível de controlar. Eu sou daquele tipo de pessoas que come sentimentos... A comida é a minha droga, literalmente. Revolto-me quando não entendem (são tão poucas as pessoas que o fazem) que a comida também pode ser um vício, que para ser controlado exige um tratamento aliado a MUITA força de vontade, como qualquer outro vício. No final do meu quarto ano de faculdade, altura em que comecei a trabalhar na minha área, já pesava 73 kilos e, apesar de bem menos do que o peso que tinha, ainda não me sentia confortável na minha pele. Fui a uma nutricionista, mas os chás e ampolas que me "impingiam" fizeram-me fugir a sete pés... E foi aí que sozinha comecei a minha nova luta. Mas as oscilações de peso não paravam e resolvi voltar à luta com a Dra, Mariana Abecasis como "orientadora" neste "novo" percurso :)
    Se hoje me perguntar se gosto de mim? Certamente muito mais do que gostava, mas a insegurança que a gordura me trouxe nunca irá desaparecer. Eu vejo-me ao espelho e sei que sou gorda e serei sempre gorda. Nunca vou poder deixar de ir ao ginásio, nunca vou poder comer sem pensar. Se o faço? Claro e por isso é que não tenho os ideais 60 kilos que fariam de mim uma mulher muito mais elegante... Mas uma batalha de cada vez.
    A minha vida mudou por estar mais magra. Namoro há três anos, sou completamente apaixonada e vivo um bocadinho mais em paz comigo. A minha relação com a minha mãe melhorou substancialmente. Sinto-me mais saudável. Já sei definir sozinha quando ultrapasso a linha... E tantas outras coisas.
    Enfim.. Isto tudo para dizer que é tão bom saber que não estamos sozinhas, que há tantas pessoas iguais a nós..
    Um grande beijinhooo

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    1. Joana das Maçãs,

      Obrigada pelo comentário. Mesmo. É bom saber que não estamos sozinhas, sim, é bom partilhar estas coisas, é bom ver e saber que é possível vencer. E, para mim, tu venceste.
      Claro que esta é uma guerra e uma luta para sempre, mas venceste. Estás num peso considerado normal. Se podias estar melhor? Podemos sempre, em todas as áreas da vida. É isso que faz de nós humanos: a capacidade de mudar e evoluir, ao longo da vida.
      É curioso que no teu comentário falas em força de vontade e esse é um assunto do qual vou falar em breve. É que é bem mais do que isso.
      E vou falar também nisto de o excesso de peso ser algo que exige tratamento, que a comida pode ser um vício, nisto de "comer sentimentos".

      Beijinho grande e mais uma vez obrigada

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    2. Joana,

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      Um beijinho

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  8. Cheguei hoje aqui e li este texto... Gostei do que li.

    também eu sou gordinha desde pequena, porque tenho tendência a ser assim, tenho peso a mais é certo, mas tenho tido a sorte até estar bem distribuído, se me arranjar sei que fico elegante!
    Tentei várias vezes chegar ao meu peso ideal que me dizem ser 7 kilos abaixo dos valores que alguma vez atingi e sou sincera, aposto que se tiver o tal peso ideal fico horrível, sem peito, sem pernas e com a cara enrugada!
    Mais do que sermos magras, temos que nos sentirmos bem e saber que um excesso ao fim de semana vai pesar na segunda, mas na sexta ele já lá não está... O ritmo têm é que ser saudável... Mesmo que não corras, mesmo que não andes todos os dias, mesmo que adores o teu sofá, há sempre forma de sermos saudáveis e de nos sentirmos bem! :)
    Eu agora estou gravida, tirei umas fotos o outro dia e sinto-me uma lontra, porque tenho pouca barriga, mas nota-se que aumentou qualquer coisa... O peito então está-me a fazer confusão (sempre gostei de ter o peito pequeno)... Mas sinto-me bem e feliz. Sinto-me em paz e esse é o espírito de quem quer ser saudável...
    Temos que estar em paz com o nosso corpo:)

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  9. Eu, até aos meus 26/27 anos, era magra demais e sofria com isso. Tomava vitaminas para abrir o apetite e tinha complexos com os meus braços e pernas. Havia até quem me dissesse que se eu fosse mais gordinha seria bonita...Nos últimos anos engordei mais de 13kg, sobretudo por causa do meu problema de saúde. hoje confesso que gostaria de perder pelo menos uns 5, mas sinto-me bem. Não uso determinadas roupas, para disfarçar uma ou outra gordurinha, sobretudo na zona da barriga. Mas estou bem comigo mesma, porque a idade também nos dá esta capacidade de nos aceitarmos como somos e de gostarmos de nós.
    Quanto a ti, minha querida, parabéns por esta partilha. Eu bem sei que este tipo de questões mexem connosco e é preciso ter uma boa dose de coragem, aliada à vontade de querer ajudar o próximo, para nos expormos assim. Beijinho grande para ti!

    De rsto - os anónimos podem não querer saber, mas os outros querem minha querida!

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  10. Espero que a dieta esteja a correr bem. É preciso acreditar e nunca esqueçer que há dias piores que outros. O importante é que os bons sejam em maior quantidade:)
    Beijinhos e muita força!

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  11. Olá, acabei de criar um blogue precisamente sobre esta temática. Estou farta de sofrer sózinha. Ele aqui está: http://rompendocomoexcesso.blogspot.com/.

    Este é o primeiro post sobre o tema que encontro num blogue português. Força e até já!

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  12. Encontrei este blog quando andava à procura de testemunhos sobre a LEV.
    Revejo-me completamente neste post!! Podia ter sido escrito por mim... As diferenças são que só fiz a minha primeira dieta aos 26 anos (perdi 10 kgs em dois meses, simplesmente respeitando a roda dos alimentos e caminhando 30 minutos todos os dias).
    Entretanto, as lutas psicológicas foram várias e intensas... Pelo meio perdi peso e ganhei ainda mais... Fiz a dieta LEV (duas vezes!!!), aguentei bem até descarrilar completamente devido à compulsão de "comer sentimentos"...
    E hoje, levada a emigrar há quase 2 anos, longe da família, amigos e namorado, hoje estou mais pesada do que nunca... Mais pesada do que alguma vez pensei estar :(
    Estou a juntar motivação para recomeçar a luta e, mais importante ainda, para manter os resultados de uma vez por todas! Quando os conseguir alcançar, claro :)
    Muitos parabéns pela luta, pela força, pela coragem!!!

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    1. Vânia,

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      Um beijinho

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