quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Não sei se já o disse aqui ou não mas sou uma pessoa de palavras. Gosto de ler, aprender, comunicar. Partilhar. Coisas. Saberes. Experiências. Sou de letras. A minha casa são as palavras, é a língua, são os livros.
E, geralmente, acontece-me sempre uma coisa curiosa com os livros. Vêm-me parar à mão livros com assuntos que se relacionam com coisas que estou a viver naquele momento. Não sei se sou eu que os escolho, se são eles que me escolhem, se é simplesmente fruto do acaso, ou se sou eu que os interpreto à luz do que estou a viver.
Nos últimos tempos voltei a estudar. Estudos Portugueses. Uma paixão de sempre: a nossa língua, a nossa literatura, o ensino.
Não seria estranho, portanto, que neste contexto, me tivesse vindo parar à mão alguma coisa de Fernando Pessoa (e quem diz Pessoa diz Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos). Afinal, é um dos maiores poetas da língua portuguesa. Coisa normal para quem está a estudar literatura.
E, realmente, nos últimos dias o Alberto Caeiro decidiu (re)entrar na minha vida. Mas, o mais engraçado, não no contexto do meu curso. Primeiro, foi uma das miúdas do sítio onde trabalho que teve que estudar Pessoa e os heterónimos. E eu reli o "Guardador de Rebanhos" e toda a postura anti-metafísica e fez-me (finalmente e pela primeira vez!) sentido. Para quê pensar tanto nas coisas? Um dia depois, com isso a ecoar na mente, a minha mãe passou numa livraria e comprou-me as "Conversas Inacabas com Alberto Caeiro". Porque achou que eu ia gostar. Ainda não li, mas já passei os olhos. E, claro, nesse livro um dos temas fundamentais é a recusa do pensamento, a necessidade de viver e sentir as emoções sem a preocupação de as interpretar, de pensar sobre elas e de complicar o que é simples.
E eu, que penso tanto, que tenho uma necessidade tão grande de analisar todos os pormenores, de encontrar mil e um motivos para complicar as coisas e me boicotar, que sou muito mais fã do Álvaro de Campos, daquele cérebro sempre a mil, que não pára, tal e qual uma máquina da revolução industrial, dei comigo a pensar que o Caeiro tem razão. Que é necessário viver mais e pensar menos. Sentir. Aproveitar as sensações. Só. Descomplicar. Aproveitar. Ser mais Caeiro e menos Campos.
(Vamos, claro, esquecer que toda esta recusa do pensamento, em Caeiro, é, em si mesma, também uma forma de filosofia).
Deixo alguns versos do Guardador de Rebanhos, do mestre de Fernando Pessoa, que, para quem não sabe, era como este denominava Caeiro ("surgiu em mim o meu mestre", diz ele a certa altura, numa carta a Adolfo Casais-Monteiro, onde explica a génese dos heterónimos):

"Pensar incomoda como andar à chuva"

"Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo.  Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos... "

"O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!"

1 comentário:

  1. Os sentidos, é isso que importa. A vida é para ser vivida, sentida, desfrutada.

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