quinta-feira, 25 de março de 2010

Nos sapatos dos outros por Isabel Leal

(Quando escrevi este texto era exactamente a isto que me referia)

Aprender a tolerância é talvez dos processos mais difíceis e mais importantes do crescimento interior de um ser humano. Sermos capazes de nos pormos na pele do outro para compreendermos as suas acções e motivações não é tarefa fácil.

1. Não há nada tão útil como sermos capazes de nos colocar nos sapatos dos outros.

Esta expressão castiça é uma metáfora adequada para uma das mais difíceis tarefas do crescimento humano que, por isso, é também sinal de desenvolvimento sadio e harmonioso.

Podermos ver o mundo a partir de um outro ponto de vista é um exercício sofisticado que exige elabração de trabalho para aceder à compreensão do outro. Diferentemente de um faz-de-conta cénicoe artístico em que se constrói uma personagem atendendo às suas características externas (físicas, de relação e de verbalização), aqui é preciso criar a empatia, através de todas as experiências próprias vividas, para, sem compromisso da nossa própria identidade, percebermos, de facto, a amplitude de outras personalidades nos seus contextos vivenciais específicos.

2. Chegar lá implica que se abandone aquela vulgar situação em que alguém diz de rompante: "se eu estivesse no teu lugar", a que se seugue um rosário de afirmações que habitualmente são improváveis ou mesmo inimagináveis como desempenho do sujeito em causa, demonstrando que o se queria dizer era, de facto, "se ele fosse eu".

Mas os outros não são como nós, nem nós como eles, razão última, aliás, porque podemos congeminar as melhores formas de actuação dos outros. Do nosso ponto de vista, claro.

3. Aceder a outras formas de ser, pensar e agir é como embarcar numa incrível viagem. É ser capaz de sentir o diferente, apenas como tal, sem juízo de valor, sem comparação automática com o que nos é familiar, sem expectativa de imprimir mudança, sem defesas, sustos ou sensações de ameaça.

Quando somos capazes de nos pormos noutros sapatos, conseguimos perceber motivações, razões, comportamentos. Conseguimos, de igual modo, acedecer à crueldade de uns, doçura de outros, à contenção rígida de mais uns tantos, à espantosa complexidade de emoções e raciocínios de todos eles.

De caminho conhecemos múltiplos mundos, aprendemos a tolerância, ganhamos a sombra da tranquilidade que se atribui aos santos ou aos sábios e, talvez o mais importante, ficamos bem mais confortáveis nos nossos próprios sapatos.

Crónica publicada da revista Notícias Magazine do Diário de Notícias de 21 de Março de 2010
Isabel Leal é psicóloga, professora no ISPA e tem alguns livros publicados.

7 comentários:

  1. A vida dos outros é sempre mais facil, a familia dos outros é sempre mais complicada e o rabo dos outros é que tem mais defeitos.

    Somos assim.

    Gostei do texto.

    A Elite

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  2. "Sermos capazes de nos pormos na pele do outro para compreendermos as suas acções e motivações não é tarefa fácil."

    Não é tarefa e eu diria que é mesmo IMPOSSIVEL. Por isso temos personalidades unicas, e cada sentimento e sentir é unico. Podemos no minimo pensar que sabemos o que o outro sente mas nunca vamos conhecer a realidade. Beijos!

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  3. Este texto é muito bom. A tolerância é algo que devia existir muito mais do que o que existe!!

    Olha, no Centro Comercial do Campo PEQUENO, HÁ UMA LOJINHA COM OS PRDUTOS aNDREIA!! (sorry the caps)

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  4. Passei, li e gostei...
    se gostares, adiciona-me

    http://generalgw.blogspot.com/

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  5. Ola gostei muito deste post e e verdade deveia de haver mais tolerancia no mundo mas nao ha, infelizmente, admiro muito a tua maneira de ser acho que es muito corajosa e es muito boa pessoa, tiraste um curso muito bonito que e de psicologia nao me importava nada de tirar esse curso. E as melhoras da tua mae beijinhos Joana

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  6. Se me permitem, só é possivel colocarmo-nos na vida dos outros, quando os outros têm a capacidade de nos transmitir a forma como vêm a vida. Podemos até calçar os seus sapatos mas se eles não nos disserem a forma como andam, a caminhada será sempre feita à nossa maneira.

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  7. Anónimo,

    Claro que sim. Mas daí termos de ter cuidado em dizer "se eu estivesse no teu lugar". Porque a maioria das pessoas julga os outros sem sequer tentar entender.

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