Sou uma pessoa que, acima de tudo, procura a harmonia na relação com os outros. Nunca tinha pensado nas coisas nestes termos, mas, a verdade é, depois de ontem o meu psicoterapeuta mo ter dito, fez todo o sentido. E justifica muitas vezes continuar conversas que já sei que não vão dar a lado nenhum e relações que há muito deveriam ter acabado. Não que me arrependa ou me queixe disso, mas, percebo agora, a justificação é tentar atingir um ponto de harmonia.
A minha mãe tem andado com alguns problemas em termos de saúde. Problemas esses que lhe têm causado um medo muito grande de ter uma doença grave. Hoje tinha um exame médico marcado para se perceber o que dava origem aos sintomas, mas, devido ao estado de ansiedade em que estava e ao facto de, depois de termos dado a admissão no hospital (um hospital privado de Lisboa, recente e com muito boa reputação) terem demorado mais de uma hora e meia a chamá-la, ela quis vir-se embora. Ou seja, não quis fazer o exame. E eu, que tenho uma ligação extremamente forte com a minha família mais chegada, sobretudo com os meus pais, não insisti para que ela ficasse. Pensei até que, dado a forma como ela se estava a sentir, talvez fosse melhor. E, assim sendo, vai fazer o exame noutro dia.
Há pouco estava no messenger, a conversar com uma pessoa (homem) que conheci recentemente, e disse-lhe isto que acabei de escrever aqui. Ora, para meu espanto, a pessoa em questão, resolveu opinar que, se era para o em dela e ela nao tinha querido fazer o exame era porque não devia estar doente, que nestas coisas de saúde não admitia nervos, e que se fosse com ele estava lixada, que se se voltasse a queixar dizia-lhe "tivesses feito o exame", e por aí. Ou seja, além de achar que tinha o direito de julgar sem ter presenciado a situação, não mostrou nenhum tipo de compreensão e/ou solidariedade. E eu, apesar de não ter gostado muito do que ele disse, fiquei em silêncio. Eu não sou assim, não julgo, tento entender o ponto de vista das pessoas, as situações pelas quais passam, e, quando são questões de saúde, mais ainda. Mas não obrigo a que todas as pessoas sejam como eu. Nem condeno quem não é. Por isso, fiquei em silêncio. Quando ele insistiu que eu falasse, tentei, a bem, explicar que, depois do que ele tinha dito, não tinha muita vontade de falar com ele, porque achava que ele, sem conhecimento, tinha emitido um julgamento quando não o devia ter feito. Mas eu não estava zangada, nem fui agressiva, nem tinha qualquer intenção de discutir. Tinha apenas optado pelo silêncio momentâneo e era assim que pretendia continuar. Algo que, se ele tivesse sido inteligente, teria feito também. Ou então podia pedir desculpa, ainda que a intenção dele não tivesse sido ofender. Porque, quando, mesmo não sendo nossa intenção, ofendemos alguém, não custa pedir desculpa e explicar "I didn't mean to". Eu teria relevado. Talvez durante alguns dias não me apetecesse falar muito, mas ia passando. Não sou uma pessoa rancorosa e não gosto de estar zangada com ninguém.
Mas não foi nada disso que ele fez. Disse que estava com dores de costas e na coluna, que estava no messenger apenas para falar comigo porque tinha levado uma injecção que o tinha deixado sem forças e que eu o estava a acusar de nao ter tido consideração por uma pessoa que estava doente e que se tinha recusado a fazer um exame por nervos. Depois acrescentou que tinha sido um prazer falar comigo e que eu me considerasse eliminada no messenger dele. Assim, do nada.
Ora, isto faz algum sentido? Para mim não. Eu não o ofendi, não fazia a mínima ideia que ele estava com algum tipo de dor, e não lhe pedi que viesse ao messenger falar comigo. Veio porque quis, logo, não tinha de me acusar de estar com dores e estar ali só por mim (nem descarregar as dores em cima de mim, julgando a minha mãe e criticando-me em seguida). Primeiro porque eu não sabia de nada, depois porque não lhe pedi. Além disso, eu apenas mostrei desagrado com algo que ele disse. Um direito que tenho. Por mais que não fosse a intenção dele, todos temos os nossos calcanhares de áquiles e, às vezes, há coisas que nos ofendem. No meu caso, são as pessoas de quem gosto, especialmente a minha família, e, mais ainda os meus pais. "Tocam-lhes" e eu viro bicho, mesmo. Sobretudo quando pode passar-se algo com eles, como é o caso. Assim sendo, ele, ou dizia que não tinha sido essa a intenção e explicava que não estava bem, ou pedia desculpa. Agora disparatar e eliminar-me do messenger? Parece-me uma bela forma de resolver os problemas, sim senhor. Uma maneira muito ponderada e adulta de resolver as coisas. Nada impulsiva ou mimada. Nada. É que o que eu pedia era apenas consideração com uma situação delicada. Já não pedia cuidado nem preocupação. Apenas consideração de não julgar sem conhecer a situação, perceber que eu não tinha gostado da atitude e recuar.
Como é óbvio, não lhe implorei, nem sequer lhe pedi que continuasse a falar comigo ou que não me eliminasse. Porque a reacção me pareceu despropositada. Disse-lhe apenas que continuava a achar que ele tinha sido inconveniente, que não conhecia a situação nem a minha mãe, e que não tinha de opiniar da forma como tinha feito e acrescentei que o facto de dizer, daquela forma, que tinha dores mas, mesmo assim, estava a falar comigo, era uma forma de me mostrar que se estava a sacrificar por mim para me fazer sentir culpada, algo que também tinha feito noutro dia, quando eu lhe dissera que ia ver o House e por isso ia desligar o computador. Acrescentei que isso se chamava cobrança e era das coisas que eu mais detestava e que, como ele me tinha apagado, isso evitava eu ter de dizer o que me passava pela cabeça.
Era de esperar que, aqui, ele dissesse que cada vez percebia mais que não valia a pena fazer "sacrifícios" por ninguém, que tinha abdicado de coisas por pessoas que achava que valiam a pena, mas que cada vez via que ganhava mais em ser egocêntrico. O que não é verdade, porque, caso ele tivesse feito as coisas por achar que eu valia a pena, não mo atirava à cara, como fez e como já tinha feito. Continuo a dizer que isso é cobrança e que de altruísta, esses gestos, nada têm. Sou apologista de que não devemos fazer coisas quando elas implicam sacrifícios (a não ser em casos necessários) pois quando isso acontece acabamos por, queiramos ou não, cobrá-las às pessoas. E a cobrança desgasta e corrói as relações, por mais paciência que as pessoas tenham.
E como é que a conversa acabou? Comigo a dizer que não o queria ofender e por isso não ia dizer mais nada e com ele a retorquir que eu podia dizer o que quisesse, que nunca o ia ofender, porque eu não o conhecia, logo jamais o poderia ofender, que apenas o ofendiam pessoas por quem ele nutria um carinho especial, e que eu estava MUITO longe de pertencer a este grupo. E eu adorei esta última parte. Porque é óbvio que estou longe de pertencer a esse grupo, conhecemo-nos há pouquíssimo tempo, apenas falarmos por messenger, mas isto foi, mais uma vez, dito em tom de "atirar à cara". E depois de ter dito que estava no messenger, cheio de dores, apenas para falar comigo.
Portanto, além de não ter tido consideração por mim nem pela minha mãe, de não ter perceido que tinha ofendido e não ter explicado que não era essa a intenção e/ou pedido desculpas e ter reagido despropositadamente eliminando-me do messenger, ainda me cobrou o estar a falar comigo cheio de dores, atirando-me, no fim, à cara que eu não tinha capacidade de o ofender porque estava MUITO longe de pertencer ao grupo de pessoas por quem ele sente carinho.
Gostaram? Eu adorei. E, apesar de achar que a pessoa quem questão é boa pessoa, há coisas e reacções para as quais eu, simplesmente, não tenho paciência nem admito. Faltas de consideração e de respeito são duas delas. E, por mais bom fundo que as pessoas tenham, as atitudes dizem muito de nós. Sejam elas por que motivo forem. Se não estamos bem, cabe-nos a nós tentar ficar, não ir atacando os outros sem nos apercebermos do impacto que as nossas atitudes têm neles e, depois, acharmos que estamos sozinhos e ninguém nos compreender. É que, provavelmente, somos nós que proporcionamos, ainda que sem perceber, que isso aconteça.
P.S.: se me estiveres a ler, não penses que escrevi isto para te ofender. Escrevi-o para desabafar. Não tenho raiva. Tenho pena. Que não tenhas percebido quando te disse "estás a ofender-me" e tenhas reagido de forma tão despropositada como se fosse eu a ofender-te. Fazendo-te de vítima. Sei que não fazes por mal, mas tens de pensar e repensar nas tuas atitudes com os outros e na tua forma de estar. Magoas e magoas-te sem necessidade. Tens muito para dar e tens muito bom fundo, mas, se continuares assim, vais acabar por afastar quem se preocupa e até está disposto a construir uma relação contigo. Comigo já o fizeste.